sábado, 11 de novembro de 2017

Levantes por Didi-Huberman







 A perda, talvez inevitável em termos de realidade   
política, consumou-se, de qualquer modo, pelo   
esquecimento, por um lapso de memória que   
acometeu não apenas os herdeiros, mas   
também, de certa forma, os atores, as   
testemunhas, aqueles que por um fugaz   
momento retiveram o tesouro nas   
palmas de suas mãos.   


–– Hannah Arendt 



  












A palavra “levante” tem muitos significados além do ato ou efeito de erguer ou levantar. Os dicionários registram dúzias de sinônimos, todos com o mesmo sentido rebelde de desobediência, desordem, indisciplina, insubordinação, insurreição, contestação, rebelião, revolta, motim, protesto, sublevação, subversão, transgressão, teimosia, resistência, revolução. Levantes, no plural, com todas as variantes que a palavra representa, é o tema da exposição internacional itinerante que chegou ao Brasil e está aberta ao público no Sesc Pinheiros, em São Paulo, de 19 de outubro até 28 de janeiro de 2018.

Inaugurada no espaço Jeu de Palme em Paris, França, onde ficou em cartaz de outubro de 2016 a janeiro de 2017, sob curadoria do filósofo e historiador francês Georges Didi-Huberman, e com o título original de “Soulèvements”, a exposição já passou pelas cidades de Barcelona, na Espanha, e Buenos Aires, na Argentina, antes de chegar a São Paulo. A proposta, através de cerca de 200 obras de diversos países, realizadas nos últimos dois séculos, entre instalações, fotografias, pinturas, desenhos, gravuras, vídeos, filmes e documentos diversos, é, nas palavras do curador, apresentar múltiplas maneiras de transformar quietude em movimento, submissão em revolta, renúncia em alegria expansiva.






Levantes por Georges Didi-Huberman
: acima,
o filósofo e historiador fotografado em Buenos Aires,
em junho de 2017, por Bernardino Avila para o jornal
Página 12, e o catálogo da exposição em cartaz no
Sesc Pinheiros, em São Paulo. No alto, fotografia de
Lyslei Nascimento no saguão de entrada da exposição








A cada nova cidade que a exposição visita, desde Barcelona e Buenos Aires, a curadoria tem a iniciativa inédita em eventos semelhantes de inserir novas obras diretamente ligadas ao contexto local. No caso brasileiro, Didi-Huberman providenciou como complemento uma série de conteúdos relacionados à escravidão, à negritude e à pobreza – temas representados em obras que ele selecionou de nomes como Sebastião Salgado, Hélio Oiticica e Oswald de Andrade. Não se trata, contudo, de apresentar uma antologia de imagens de protestos populares, conforme esclarece o curador em entrevistas e no catálogo da exposição, editado com o acervo das obras e com ensaios escritos especialmente para o evento por pensadores de destaque como Judith Butler, Nicole Brenez e Jacques Rancière, entre outros.



Uma constelação de imagens



O objetivo de “Levantes”, explicou Didi-Huberman em uma entrevista em junho de 2017 ao jornal “Página 12” da Argentina, é apresentar não uma antologia cronológica de imagens, mas uma constelação em que as imagens se relacionam em cinco blocos ou eixos: “elementos”, “gestos”, “palavras”, “conflitos”, “desejos”. “As imagens reunidas, a princípio”, destaca o curador, “funcionam por meio dos gestos. O fato é que quando se está alienado e se protesta contra essa alienação, o protesto toma uma forma corporal: é o braço que se levanta, o corpo que se movimenta, a boca que se abre, entre palavras e cantos, tudo isso é corporal. O corpo humano é a coisa mais antiga que possuímos, o corpo humano é mais antigo que um fóssil, que uma obra de arte grega; o corpo humano é muito antigo, é nossa antiguidade.”






Levantes por Didi-Huberman: no alto, duas gravuras
de Francisco de Goya datadas do início do século 19,
El cargador e No harás nada con clamor. Acima,
a comemoração dos marinheiros no motim a bordo
do Encouraçado Potemkin, filme de 1925 de
Serguei Eisenstein. Abaixo, crianças brincando em
Barcelona, na época da Guerra Civil Espanhola,
em fotografia de 1936 de
Agustí Centelles











A investigação que a curadoria de Didi-Huberman propõe ao visitante da exposição, ou mesmo ao leitor que observa as imagens do catálogo, segue o percalço dos gestos – dos trabalhadores braçais individualizados em desenhos e aquarelas do espanhol Francisco de Goya (1746-1828) às associações de revolta coletiva em cenas dos filmes do russo Serguei Eisenstein (1898-1948) e daí às representações contemporâneas da contracultura e das contestações mais diversas da atualidade. Em cada gesto, diferentes formas de representações dos levantes de rebeldia, sejam elas de apenas um indivíduo ou de multidões engajadas em transformações sociais, políticas, religiosas, éticas, estéticas. Na maioria das representações, não por acaso, o protesto contra a opressão surge na imagem de um mesmo gesto que se repete aqui e ali com algumas variações: os braços erguidos em direção ao céu.

No catálogo da exposição, Didi-Huberman também ressalta esta coincidência do mesmo gesto. “Levantar-se é resistir, erguer o punho ou o braço é resistir”, destaca. “Antes mesmo de começar e levar adiante uma ação voluntária e compartilhada, o levantar se faz por um simples gesto que, de repente, vem revirar a prostração que até então nos mantinha submissos (por covardia, cinismo ou desespero). Levantar-se é jogar longe o fardo que pesava sobre nossos ombros e entravava o movimento. É quebrar certo presente – mesmo que a marteladas, como queriam Friedrich Nietzsche e Antonin Artaud – e erguer os braços ao futuro que se abre é um sinal de esperança e de resistência. É um gesto e uma emoção (…). No gesto do levante, cada corpo protesta por meio de todos os seus membros, cada boca se abre e exclama o não da recusa e o sim do desejo.”







Levantes por Didi-Huberman: no alto, fotograma
de Le Route, filme de 2006 de Chen Chieh-Jen,
artista de TaiwanAcima, Beaubien Street, fotografia
de 1971 do norte-americano Ken Hamblin. Abaixo,
fotografia de Eduardo Gil, da Argentina, Niños
desaparecidos, secunda marcha de la Resistencia,
Buenos Aires, 9-10 décembre 1982











Gestos contra tempos sombrios



A atualidade dos gestos de resistência e de rebelião contra os tempos sombrios do discurso do ódio e das ações violentas, de grupos da direita e da extrema direita, move a constelação de imagens, textos e objetos selecionados por Didi-Huberman para convidar a uma reflexão sobre as manifestações populares por meio da arte. Porque, afinal, não há levantes e resistência sem arte, sem música, hinos, palavras de ordem, nem sem imagens que ficarão na memória.

O próprio curador alerta, na apresentação à exposição, que um levante pode acabar em lágrimas de decepções, em lágrimas de mães chorando sobre os filhos mortos, mas ele também adverte que essas lágrimas não são de esgotamento: elas ainda podem ser força de ação e paixão, de teimosia e rebeldia –– “como nas marchas de resistência das mães e avós de Buenos Aires (…), seja na floresta do Chiapas, na fronteira greco-macedônica, em qualquer parte da China, no Egito, em Gaza ou na selva das redes da internet, pensadas como uma Vox Populi. Sempre haverá uma criança que pule o muro.”

Movimentos políticos ou objetos de arte? A potência física e visual dos corpos que resistem contra as formas de opressão está sempre na fronteira dos sentidos que podemos encontrar, conforme destacou Didi-Huberman na conferência “Imagens e Sons como Forma de Luta”, que marcou a abertura da exposição “Levantes” em São Paulo. Segundo o curador, “as imagens pertencem a todo mundo. Não há autoctonia, nem propriedade no universo das imagens. Como todos os objetos culturais, as imagens são feitas para migrar, a exemplo do selo que é feito para atravessar uma fronteira. Porém, o legado dos levantes depende de nós, da nossa capacidade de transmitir o sentido dessas imagens.”







Levantes por Didi-Huberman: acima, fotogramas
extraídos de Idomeni, 14 mars 2016, Frontière
gréco-macédonienne, filme de Maria Kourkouta,
da Grécia. Abaixo, fotogramas extraídos de Cruzar
un Muro, filme de 2013 do chileno Enrique Ramirez
que mostra a fotografia e como ela foi produzida









Na trajetória de Didi-Huberman, que nas últimas duas décadas está presente com seus livros e ensaios como teórico da arte e da cultura em destaque e como referência importante em diversas áreas da pesquisa acadêmica, a exposição “Levantes” marca um novo capítulo no percurso de curadoria que ele iniciou em 2010 com a mostra intitulada “Atlas –– Como levar o mundo às costas?”, inaugurada no Museu Reina Sofía, em Madri. “Atlas”, a exposição, foi motivada pelos estudos de Didi-Huberman sobre o historiador alemão Aby Warburg (1866-1929), conhecido pela criação de pranchas de montagens iconográficas, nomeadas por ele de “Atlas Mnemosyne”, um projeto concebido entre 1924 e 1929 e que ficou inacabado na meta de relacionar uma grande variedade de imagens de épocas e de geografias distintas.



Diálogo entre passado e presente



O observador atento poderá perceber que a figura mitológica do Atlas, o titã gigantesco imaginado na Grécia da Antiguidade que ergue os braços para sustentar o peso do globo terrestre, permanece como referência incontornável para a exposição “Levantes”. As diferenças são sutis: enquanto em “Atlas” o trabalho de curadoria encontrava analogias visuais entre representações diversas, exibindo lado a lado gravuras, vídeos e fotografias aleatórias que estabeleciam um certo diálogo conceitual, em “Levantes” são as constelações de variações sobre gestos de punhos e braços que fazem emergir trajetórias e memórias de manifestações históricas –– todas elas construindo entre si um diálogo intenso entre passado e presente, entre repetição e sobrevivência das formas e dos ideais.





Levantes por Didi-Huberman: acima, Mujer con
la bandera
, fotografia de 1928 da italiana Tina Modotti
no México. Abaixo, Black Panthers in Chicago, Illinois,
fotografia de 1969 do japonês Hiroji Kubota





À imensidão de levantes em épocas e geografias diversas, dos primórdios da Revolução Industrial à comoção das multidões em Havana no auge da Revolução Cubana, das legiões de estivadores chineses de meados do século 20 aos rostos contemporâneos nas fileiras do Occupy Wall Street em Nova York, de momentos dramáticos do movimento feminista a surpreendentes flagrantes anônimos ou desconhecidos sobre a natureza humana de mulheres e homens em seus anseios por melhores condições de vida, Didi-Huberman acrescenta, na montagem da exposição no Brasil, referências à memória da resistência e das insurreições em território nacional. A História sempre pode ser reconstruída através de cacos e de resquícios que foram considerados como detritos pela história oficial –– como professa o pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), um dos mestres na linhagem a que se filia o trabalho e as ideias de Didi-Huberman.



Testemunho, paradoxo, esperança



Assim é que o público pode encontrar na montagem brasileira de “Levantes” as fotografias de Sebastião Salgado que registram ações do MST (Movimento dos Sem Terra), o cartaz “Seja marginal, seja herói” e os flagrantes libertários dos Parangolés de Hélio Oiticica (a partir de fotogramas que Eduardo Viveiros de Castro extraiu do filme “H.O.” de Ivan Cardoso), a poesia dos manifestos Pau-Brasil e Antropofágico de Oswald de Andrade, fragmentos de “Os Sertões” de Euclides da Cunha, fiéis na procissão de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, Minas Gerais, em fotografias da década de 1950 de Marcel Gautherot, e a percepção do racismo em imagens da série “Dito Escuro”, que Rafael RG registrou em 2014. Entre tantas imagens de impacto, que provocam memórias e reflexões e paixões, Didi-Huberman repete a presença de quatro fotografias em pequeno formato que fazem parte de momentos anteriores de sua reflexão filosófica em livros, ensaios e conferências.





Levantes por Didi-Huberman: acima, procissão
do Bom Jesus do Matosinhos em Congonhas
,
Minas Gerais, em fotografia da década de 1950
de Marcel Gautherot. Abaixo, Os ícones da
vitória
, fotografia de 1997 de Sebastião Salgado
que registra o Movimento dos Sem Terra.
No final da página, as quatro fotografias
tiradas clandestinamente por membros dos
Sonderkommandos, em agosto de 1944, no
campo de extermínio em Auschwitz-Birkenau




As quatro fotografias, à primeira vista enigmáticas e quase indecifráveis, permanecem como os únicos registros visuais que sobreviveram ao tempo dos campos de extermínio do Holocausto na Segunda Guerra, em Auschwitz-Birkenau. São imagens que só recentemente se tornaram conhecidas, depois de décadas, e como confessa o curador estão na gênese do que resultou no projeto “Levantes”.

Alguns pedaços de película de filme, alguns gestos políticos: as quatro fotografias foram feitas em agosto de 1944, clandestinamente, por um integrante dos Sonderkommandos, os pequenos grupos de judeus que tiveram a terrível tarefa de colocar na câmara de gás seus semelhantes, depois enterrá-los, sendo que eles próprios também eram executados em seguida. As fotografias, perturbadoras, mostram à distância fileiras de mulheres e, lado a lado, cadáveres queimados. Imagens que revelam. Testemunhos, extremos, que resistiram à violência, ao tempo, e chegaram ao futuro. E que também são, na escuridão, por paradoxo, esperança.



por José Antônio Orlando



Para assistir a conferência Imagens e Sons como Formas de Luta, de Georges Didi-Huberman,  clique aqui.

Para ler a entrevista de Didi-Huberman ao jornal da Argentina Página 12 sobre a exposição Levantes,  clique aqui.

Para ler a entrevista de Didi-Huberman à revista francesa L'Humanité sobre a abertura da exposição Soulèvements na França,  clique aqui.






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